Desenvolvimento infantil, o meu filho pode sofrer de stress?

Os perigos do estresse tóxico na infância

Desenvolvimento infantil, o meu filho pode sofrer de stress?

Se o estresse constante faz mal aos adultos, imagine às crianças.

O assunto é sério e ganhou um painel no último Congresso da Sociedade Brasileira de Pediatria, realizado em outubro de 2017, que reforçou os efeitos do estresse tóxico na infância.

Em junho, a entidade já tinha lançado um manual para os médicos sobre a prevenção do problema, que parece cada vez mais corriqueiro.

“Hoje as crianças estão expostas a muitas situações estressantes, como agenda cheia de compromissos, os pais trabalhando muito e até mesmo a instabilidade do país pode provocar tensões em casa que sobrecarregam os filhos”, aponta Blenda de Oliveira, psicóloga especialista em psicoterapia de crianças, adolescentes e famílias, de São Paulo.

É essa exposição exagerada e contínua, em um nível que a criança ainda não consegue suportar, que faz mal.

“Além do abuso, da violência física e verbal, outras atitudes como falta de atenção, de carinho e cobranças excessivas podem levar ao quadro”, explica Liubiana Arantes de Araújo, neuropediatra presidente do Departamento Científico de Desenvolvimento e Comportamento da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

As consequências da sobrecarga são bem conhecidas pela ciência. “O estresse tóxico interfere no desenvolvimento cerebral e aumenta o risco de distúrbios do sono, dificuldades de aprendizado e problemas de comportamento na infância”, comenta Liubiana. No futuro, essas crianças também estão mais sujeitas a sofrer com hipertensão, doenças cardíacas, obesidade e depressão.

Nem todo estresse é ruim

Segundo a especialista da SBP, ele pode ser dividido em três níveis. O primeiro deles é considerado positivo. “É o que ocorre quando a criança toma remédios que não queria ou quando a família chama a atenção, mas de forma afetuosa”, exemplifica Liubiana. Esses estímulos nos preparam para lidar com frustrações e desafios durante a vida toda.

Depois, vem o estresse tolerável, que já está além da capacidade dos pequenos, mas que eles conseguem encarar com o suporte da família. São as situações inevitáveis como um divórcio, doença na família ou mudança de casa. “O fato dos adultos conversarem e ensinarem a lidar com aquela adversidade ameniza os possíveis danos que ela causaria”, comenta a médica.

Ele passa a ser tóxico quando não há apoio e quando é recorrente. O problema aqui é que, cada vez que há um estímulo negativo, começa uma reação em cadeia no organismo.

O cérebro libera grandes quantidades de cortisol, o hormônio do estresse, o coração acelera e as conexões entre os neurônios ficam prejudicadas.

Se essa descarga vira rotina, o corpo passa a reagir exageradamente a qualquer acontecimento aparentemente inofensivo.

E aí o filho pode ficar mais irritado, ter problemas na escola, para dormir… A lista é longa e culmina em problemas que costumamos associar à vida adulta. “Tem aumentado a incidência de depressão, transtornos de ansiedade e de comportamento na infância – e parte disso se explica pelo estilo de vida não saudável que as crianças levam”, destaca Liubiana.

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Quase adultos

Entre os principais vilões da saúde mental infantil está o que Liubiana chama de agenda de miniexecutivo. “A criança precisa do ócio criativo, precisa descansar e acaba não tendo tempo entre as diversas atividades do cotidiano”, comenta a médica.

Isso não quer dizer que os filhos não possam fazer esportes e aulas de idiomas fora do horário da aula. “Os estímulos devem ser oferecidos, mas sempre respeitando os limites, que são muito individuais. Mas mesmo que ela goste, pode se sentir exausta depois”, aponta a especialista.

“Muitas vezes também o problema não é a quantidade de coisas que a criança faz, mas o que se espera dela em cada uma dessas atividades. A cobrança excessiva de ambientes competitivos pode afetar a autoestima e impactar o desenvolvimento emocional”, complementa Blenda.

Outra situação comum é o estresse dos maiores refletir nos menores. “O medo é parte da vida, mas o que vemos hoje são crianças com medos reais da violência urbana ou dos pais ficarem desempregados ao invés de temerem fantasmas”, aponta Blenda. “E isso é prejudicial pois são preocupações que elas ainda não compreendem totalmente”, orienta a psicóloga.

Como amenizar?

É impossível impedir algumas coisas chatas de acontecerem, assim como os assuntos que perturbam os pais provavelmente chegarão aos ouvidos dos filhos. Por isso, o ideal é ser sincero, explicar o que está acontecendo de maneira honesta e simples, respeitando a capacidade da criança de ouvir aquilo.

“Se você já tem um filho que é ansioso, de nada adianta o sobrecarregar com informações com as quais ele não poderá fazer nada”, alerta Blenda. “Devemos levar em conta como cada criança enxerga as situações difíceis da vida, que existem e devem ser traduzidas com brincadeiras, conversas e carinho”, completa Liubiana.

É importante também ficar atento aos sinais de que a criança está se sentindo sobrecarregada, como irritabilidade, dificuldades no sono, alterações no comportamento e cansaço excessivo. E, a partir daí, pensar em estratégias para aliviar o peso sob os ombros dos pequenos.

Uma delas é rever hábitos e comportamentos da casa, uma vez que os mais jovens tendem a replicar atitudes, discursos – e porque não dizer medos? – dos pais.

E, então, organizar uma rotina saudável, que inclua tempo para brincar, conviver em família e até mesmo fazer nada.

A boa notícia é que, se a criança passa a receber atenção, carinho e subsídios para lidar com as adversidades da vida, o efeito negativo do estresse pode ser amenizado.

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Источник: https://bebe.abril.com.br/desenvolvimento-infantil/os-perigos-do-estresse-toxico-na-infancia/

13 sintomas de problemas psicológicos em crianças – Vittude Blog

Desenvolvimento infantil, o meu filho pode sofrer de stress?

11 de setembro de 2018

  |  Tempo de leitura: 11 minutos

A maioria dos pais tem um desejo instantâneo de proteger seus filhos, porém, isso pode acarretar em problemas psicológicos em crianças. É natural que um pai cuide das necessidades dos filhos: se uma erupção inexplicável aparece, vamos ao médico. Se a febre aumenta, vamos ao médico. Se um osso parece ferido, vamos o médico.

Feridas visíveis são relativamente fáceis de reconhecer. É diferente quando uma criança começa a ter problemas na escola ou com amigos, ou quando ela não coopera e tem explosões de raiva inexplicáveis. Tais ocorrências muitas vezes deixam os pais confusos e inseguros sobre o que fazer.

Quase uma em cada cinco crianças é afetada por um distúrbio emocional ou comportamental. Você pode reconhecer que algo não está certo, mas o que é ou o que fazer permanece um mistério.

Como identificar transtornos em crianças

Normalmente cabe aos adultos na vida da criança identificar se a criança tem algum problema de saúde mental. Infelizmente, muitos adultos não conhecem os sinais e sintomas da doença mental em crianças.

Mesmo que você saiba alguns deles, pode ser difícil distinguir sinais de um problema ao comportamento normal da infância. Você pode argumentar que toda criança exibe alguns desses sinais em algum momento. E as crianças muitas vezes não têm o vocabulário ou capacidade de desenvolvimento para explicar suas preocupações.

Preocupações sobre o estigma associado à doença mental, o uso de certos medicamentos e os custos ou desafios logísticos do tratamento também podem impedir que os pais procurem atendimento para uma criança que tenha uma suspeita de doença mental.

Quais condições de saúde mental afetam as crianças?

As crianças podem desenvolver todas as mesmas condições de saúde mental que os adultos, mas às vezes as expressam de forma diferente. Por exemplo, crianças deprimidas frequentemente mostram mais irritabilidade do que adultos deprimidos, que tipicamente demonstram tristeza.

As crianças podem experimentar uma série de condições de saúde mental, incluindo:

Transtornos de ansiedade

Crianças que têm transtornos de ansiedade, como transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno de estresse pós-traumático, fobia social e transtorno de ansiedade generalizada, experimentam a ansiedade como um problema persistente que interfere em suas atividades diárias.

Alguma preocupação é uma parte normal da experiência de cada criança, muitas vezes mudando de um estágio de desenvolvimento para o seguinte. No entanto, quando a preocupação ou o estresse dificultam o funcionamento normal de uma criança, um transtorno de ansiedade deve ser considerado.

Transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH)

Essa condição geralmente inclui sintomas de dificuldade de atenção, hiperatividade e comportamento impulsivo. Algumas crianças com TDAH apresentam sintomas em todas essas categorias, enquanto outras podem ter sintomas em apenas uma.

Transtorno do espectro do autismo (ASD)

O transtorno do espectro do autismo é um transtorno grave do desenvolvimento que aparece na primeira infância, geralmente antes dos três anos de idade. Embora os sintomas e a gravidade variem, o TEA afeta sempre a capacidade da criança de se comunicar e interagir com outras pessoas.

Distúrbios alimentares

Transtornos alimentares, como anorexia nervosa, bulimia nervosa e transtorno da compulsão alimentar periódica, são condições sérias, até mesmo fatais. As crianças podem ficar tão preocupadas com comida e peso que se concentram apenas nisso e acabam negligenciando outros fatores essenciais para a vida.

Distúrbios do humor

Transtornos de humor, como depressão e transtorno bipolar, podem levar a criança a sentir sentimentos persistentes de tristeza ou mudanças extremas de humor muito mais graves do que as alterações de humor comuns nas pessoas.

Esquizofrenia

Esta doença mental crônica faz com que a criança perca o contato com a realidade (psicose). A esquizofrenia aparece com mais frequência no final da adolescência, até os 20 anos.

Sintomas de problemas psicológicos em crianças

Um parente ou amigo pode dizer que é apenas momentâneo, mas você sabe quando sente que o estágio dura muito tempo. Quando o comportamento é muito perturbador e não importa o que você tente, o desespero toma conta.

Existem alguns sinais de aviso que podem indicar um problema que requer atenção especializada. A lista abaixo foi retirada do livro de Ann Douglas, Parenting Through the Storm: Encontre Ajuda, Casa e Força Quando Seu Filho Tem Problemas Psicológicos.

  1. A criança está tendo mais dificuldade na escola.
  2. A criança está batendo ou intimidando outras crianças.
  3. A criança está tentando se machucar.
  4. A criança está evitando amigos e familiares.
  5. A criança está passando por mudanças frequentes de humor.
  6. A criança está passando por emoções intensas, como explosões de raiva ou medo extremo.
  7. A criança está sem energia ou motivação.
  8. A criança está tendo dificuldade em se concentrar.
  9. A criança está tendo dificuldades para dormir ou está tendo muitos pesadelos.
  10. A criança tem muitas queixas de dores ou desconfortos físicos.
  11. A criança está negligenciando a aparência.
  12. A criança está obcecada com o peso, a forma ou a aparência dele.
  13. A criança está comendo significativamente mais ou menos do que o normal.

Saiba se seu filho pode estar passando por um ou mais desses sintomas, que são atípicos para o estágio de desenvolvimento dele e não estão relacionados a um movimento, como divórcio ou outro evento estressante.

Assim, você pode expressar suas preocupações e começar a jornada de encontrar a ajuda que seu filho pode precisar. Poucos são mais capazes de guiar os pais pela agonizante incerteza e turbulência de uma criança com um problema de saúde mental do que um psicólogo especializado.

Plataformas como a Vittude podem facilitar a busca por um psicólogo que atenda a requisitos específicos para atender a todos que precisem de acompanhamento. Acesse nosso site e confira você mesmo todas as oportunidades oferecidas!

Se você e sua criança se encontrarem na montanha-russa emocional de um desafio de saúde mental, você precisará de ajuda e esperança. Você deve cuidar de si mesmo e permanecer forte para o seu filho. Fazer amizade com outras pessoas que enfrentaram desafios semelhantes é uma boa atitude para que você não se sinta isolado e sozinho.

Se você está preocupado com a saúde mental do seu filho, o primeiro passo é consultar um psicólogo. Descreva o comportamento que lhe diz respeito. Considere conversar com o professor do seu filho, amigos íntimos ou entes queridos, assim como outros profissionais de saúde para ver se eles notaram quaisquer alterações no comportamento.

Como os profissionais de saúde diagnosticam a doença mental em crianças?

As condições de saúde mental em crianças são diagnosticadas e tratadas com base em sinais e sintomas e como a condição afeta a vida diária da criança. Não há testes simples para determinar se algo está errado.

Para fazer um diagnóstico, o médico de seu filho pode recomendar que ele seja avaliado por um especialista, como psiquiatra, psicólogo, assistente social, enfermeira psiquiátrica, conselheira de saúde mental ou terapeuta comportamental.

O médico do seu filho irá trabalhar junto com ele para determinar se ele tem um problema de saúde mental. Assim como procurará outras possíveis causas para o comportamento do seu filho, como um histórico de condições médicas ou traumas.

Ele pode lhe fazer perguntas sobre o desenvolvimento de seu filho, quanto tempo seu filho está se comportando dessa maneira, percepções do problema pelos professores ou cuidadores e qualquer histórico familiar de condições de saúde mental.

Diagnosticar a doença mental em crianças pode ser difícil, porque as crianças pequenas geralmente têm dificuldade em expressar seus sentimentos e o desenvolvimento normal varia de criança para criança. Apesar desses desafios, um diagnóstico adequado é parte essencial da orientação do tratamento.

Como a doença mental em crianças é tratada?

Opções comuns de tratamento para crianças com problemas de saúde mental incluem:

Psicoterapia

A psicoterapia, também conhecida como terapia da fala ou terapia comportamental, é uma maneira de abordar as preocupações com a saúde mental conversando com um psicólogo ou outro profissional de saúde mental.

Durante a psicoterapia, uma criança pode aprender sobre sua condição, humor, sentimentos, pensamentos e comportamentos.

A psicoterapia pode ajudar a criança a aprender como responder a situações desafiadoras com habilidades de enfrentamento saudáveis.

Medicação

O médico do seu filho pode recomendar que a criança tome certos medicamentos, como estimulantes, antidepressivos, medicamentos ansiolíticos, antipsicóticos ou estabilizadores do humor, para tratar sua condição de saúde mental.

Algumas crianças se beneficiam de uma combinação de abordagens. Consulte um profissional para determinar o que pode funcionar melhor , incluindo os riscos ou benefícios de medicamentos específicos.

Como posso ajudar meu filho a lidar com a doença mental?

Seu filho precisará do seu apoio mais do que nunca.

Antes de uma criança ser diagnosticada com uma condição de saúde mental, pais e filhos comumente experimentam sentimentos de impotência, raiva e frustração.

Pergunte ao profissional de saúde mental de seu filho para obter conselhos sobre como mudar a maneira como você interage com seu filho, assim como sobre as maneiras de lidar com comportamentos difíceis.

Procure maneiras de relaxar e se divertir com seu filho. Elogie suas forças e habilidades. Explore novas técnicas de gerenciamento de estresse, que podem ajudá-lo a entender como responder com calma a situações estressantes.

Considere procurar aconselhamento familiar ou a ajuda de grupos de apoio também. É importante que você e seus entes queridos entendam a doença e os sentimentos de seu filho, assim como tudo o que você pode fazer para ajudá-lo.

Para ajudar o seu filho a ter sucesso na escola, informe os professores do seu filho e o conselheiro da escola para que saibam que ele tem um problema de saúde mental. Se necessário, trabalhe com a equipe da escola para desenvolver um plano acadêmico que atenda às necessidades do seu filho.

Se você estiver preocupado com a saúde mental de seu filho, procure orientação. Não evite obter ajuda para seu filho por vergonha ou medo. Com o apoio adequado, você pode descobrir se seu filho tem uma condição de saúde mental e explorar opções de tratamento para ajudá-lo a prosperar na vida, aliviando as dificuldades.

Leia também:

Meditação para crianças: como ensinar seus filhos a perceber a mente

Psicoterapia infantil: como funciona e quando é recomendado?

Juliana Battistelli

Formada em Comunicação e Multimeios pela Universidade Estadual de Maringá, trabalha como redatora de conteúdos. O que mais encanta e move Juliana no mundo são as tentativas constantes e impossíveis de compreender o outro.

Источник: https://www.vittude.com/blog/problemas-psicologicos-em-criancas/

Ansiedade: 1 em cada 8 crianças sofre com o problema

Desenvolvimento infantil, o meu filho pode sofrer de stress?

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(Foto: Joel sorrel/getty images)

Um choro inconsolável quando o pai ou a mãe saem para o trabalho (afinal, será que vão voltar?). Nervos à flor da pele dias antes de se apresentar em público na escola. Mãos suadas ao sair de casa para tomar vacina… O que essas cenas ilustrativas – que podem estar acontecendo aí na sua casa – têm em comum? A ansiedade.

Segundo a Associação Americana de Ansiedade e Depressão, uma em cada oito crianças apresenta algum distúrbio desse tipo, desde quadros mais leves até patológicos. E, para os especialistas, esse número tende a aumentar, por causa da rotina atribulada e cheia de cobranças da vida moderna. É fato que há um componente genético que torna algumas crianças mais sensíveis que outras.

Mas o ambiente e a criação têm um peso igual ou mais importante.

«1 em cada 8 crianças tem algum distúrbio de ansiedade.»

Assim como o medo, a ansiedade –que pode surgir em qualquer idade e momento – está ligada à sobrevivência do ser humano.

Frente a uma situação de estresse, o sistema límbico, região cerebral que comanda todas as nossas emoções e comportamentos sociais, envia um sinal para o sistema nervoso central.

Assim, o corpo inteiro fica em estado de alerta: os batimentos cardíacos aceleram, os músculos tensionam, as mãos transpiram. É o organismo respondendo à iminência de um perigo, seja ele real ou hipotético.

Para a psiquiatra infantil Ana Cristina Mageste, da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), esse quadro surge a partir de “uma falta de recurso para enfrentar as adversidades, o que causa muito sofrimento”.

E como as crianças ainda estão construindo seu repertório para lidar com situações de estresse e provações, elas podem ser especialmente vulneráveis a seus efeitos.

É por esse motivo que até a espera por algo bom, como Natal ou aniversário, pode se transformar em uma verdadeira tortura e deixar seu filho desestabilizado e inquieto.

Gustavo*, 8 anos, sofre justamente com essa angústia quando está esperando por algo bacana, seja uma visita à casa das primas ou uma excursão com a escola. Nesses casos, ele mesmo já avisa para a mãe, Flávia*, especialista em marketing: “Ai, mamãe, já estou com dor de barriga agora que sei que vou passear!”.

Segundo ela, o alerta de que o filho era ansioso surgiu com a observação de sinais típicos: “De modo geral, ele é uma criança muito feliz e ativa, mas começou a se dispersar demais no colégio. Também notei que estava com dificuldade de ter um sono contínuo e começou a cutucar demais as unhas”, conta ela.

Além desses sintomas, dores de cabeça e no corpo sem motivo aparente, queixas frequentes de cansaço e falta de ânimo para ir à escola também indicam que algo não vai bem.

Ansiedade (Foto: Rozikassim/Getty Images)

QUANDO PASSA DO LIMITE

Em geral, o indicado como tratamento é a terapia cognitivo-comportamental, que ensina a lidar com os sentimentos de forma mais equilibrada. A ideia é lentamente expor a criança a situações que a desestabilizam e, conforme ela adquire segurança para lidar com o que sente, passa a novos desafios. Essa foi a solução encontrada por Flávia para ajudar o filho, combinada à homeopatia.

É verdade que, em uma dose saudável, a ansiedade pode ajudar a se preparar melhor para uma situação crítica. Ficar ansioso por causa de uma prova é um bom motivo para estudar mais. Mas nem sempre é assim.

“Às vezes, a sensação é tão intensa e causa tanto mal-estar que a pessoa fica paralisada e não consegue agir”, diz o psiquiatra Fernando Asbahr, coordenador do Programa de Transtornos de Ansiedade na Infância e Adolescência do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (SP). A partir desse ponto, ela pode se tornar um problema.

Não existe exame clínico capaz de detectar um nível de ansiedade considerado acima do normal. “Ela pode se tornar patológica dependendo da dose. Quem sofre com fobias, por exemplo, tem a sensação de que está correndo um grande perigo. É a criança que não entra no elevador de forma alguma por ter medo de que vai cair”, diz Asbahr.

Por isso, cabe aos pais ficarem atentos: se os sintomas passam a atrapalhar a qualidade de vida da criança, se são persistentes (prolongando-se por dois ou três meses) e se alteram o comportamento dela, procure um especialista.

Outro alerta é quando ela passa a ter dificuldades no ambiente a que está acostumada: apresenta problemas em lidar com outras crianças na escola ou piora do relacionamento em casa.  “Atualmente, a prevalência de ansiedade patológica nas crianças que sofrem do transtorno é em torno de 28%”, diz a psiquiatra.

É comum que crianças ansiosas apresentem outras doenças associadas, como depressão e Transtorno de Déficit de Atenção (TDAH), que é o caso mais comum. Cerca de 30% das crianças que sofrem com esse transtorno também manifestam ansiedade. Por isso, vale investigar.

«80% das crianças com algum tipo de ansiedade não recebem tratamento.»

Mas nem todos os pais reconhecem que esses sinais dos filhos precisam ser levados a sério.

De acordo com um relatório do Child Mind Institute (EUA), publicado no ano passado, oito em cada dez crianças com ansiedade diagnosticável não fazem nenhum tipo de tratamento.

“Primeiro, os pais precisam ter a dimensão de que se trata de um problema. Ainda escutamos muitos dizerem aos filhos para largar de frescura”, conta Asbahr.

Só que, para conseguir lidar com a ansiedade, é essencial que a criança se sinta acolhida pelos pais. “É importante ajudá-la a reconhecer seus medos e mostrar que eles são aceitáveis.

Sentimentos são sempre legítimos porque não são controlados”, diz o pediatra Daniel Becker, autor do blog Pediatria Integral. Por isso, não minimize o sofrimento do seu filho e encoraje-o a superar os motivos de sua aflição sem forçá-lo a nada.

Diga que você entende por que ele está com medo, que também já se sentiu assim.

Só não caia na armadilha de tentar evitar que a criança enfrente o que lhe causa ansiedade, passando a fazer tudo por ela ou mudar o curso das situações. A família toda não pode subir de escada porque a criança tem medo de elevador.

“A ideia não é poupá-la de situações reais, que cedo ou tarde terá de lidar. E, sim, fazê-la se sentir segura e amparada”, explica Becker. Aqui, não há outro caminho: é preciso ter carinho, paciência, empatia e entender que algo que você tira de letra pode, sim, ser motivo de grande angústia para ela.

O melhor para que o seu filho enfrente os desafios é ter você ao lado dele.

Uma das grandes preocupações em relação ao diagnóstico de ansiedade é a medicalização do problema. Um estudo realizado entre 2005 e 2012, publicado no periódico Neuropsychopharmacology, mostrou que a prescrição de antidepressivos para crianças e jovens aumentou 54% no Reino Unido.

Até a própria Organização Mundial da Saúde já manifestou preocupação com o consumo de medicamentos sem necessidade para menores de 18 anos.

É verdade que, em alguns casos, quando há outras doenças associadas, como depressão e TDAH, ou quando o próprio distúrbio já é considerado severo, é difícil que a criança esteja em condições de seguir o tratamento terapêutico.

“Se ela estiver muito deprimida, apática, não vai conseguir ser capaz de se expor a situações que a afligem, nem trabalhá–las”, diz Asbarh. Nesses casos, pode ser necessário que sejam prescritos medicamentos.

Os mais comuns são os inibidores seletivos da recaptação da serotonina, um neurotransmissor responsável pelo “estado de vigília” do cérebro. O principal problema, no entanto, é que as crianças apenas controlem os sintomas com os medicamentos, sem aprenderem as estratégias necessárias para lidar com as situações que levam à ansiedade. Por isso, a terapia, com ou sem medicação, é indispensável ao tratamento.

Ansiedade (Foto: Klubov/Getty Images)

A ANSIEDADE DA SEPARAÇÃO

As primeiras angústias do seu filho vão surgir bem antes da idade escolar, de aprender a contar os dias para um evento importante no calendário e até de pronunciar as primeiras palavras ou dar os primeiros passos.

A ansiedade da separação, que não tem esse nome por acaso, pode aparecer por volta dos 6 meses, quando o bebê começa a se dar conta de que ele e a mãe não são um ser único. E essa percepção gera sofrimento.

“O processo de separação entre o filho e a mãe costumava durar até os 3 anos, quando muitas crianças entram em idade escolar e passam a frequentar a educação infantil. Mas, hoje, vemos algumas de 7 ou 9 anos que ainda manifestam esse tipo de angústia“, explica Ana Cristina.

No caso de Larissa, 4, o quadro se intensificou após o nascimento de seus irmãos trigêmeos. Quando a menina estava prestes a completar 2 anos, sua mãe, a blogueira Andréa Jacoto, deu à luz Anna, Alexandre e Felipe, hoje com 2 anos. “Seu mundinho de filha única foi invadido.

Ela passou a dividir minha atenção com mais três irmãos e, mesmo que trabalhássemos o melhor possível nosso relacionamento, o ciúme e a sensação de perda foram inevitáveis”, conta a mãe.

Além dos três dias que Andréa passou na maternidade, os gêmeos ficaram 29 dias na UTI neonatal, o que exigiu uma dedicação diária da mãe, deixando a primogênita insegura. “Os dias que fiquei internada na maternidade foram os primeiros que passei longe dela.

Foi muito difícil, mesmo chegando em casa e dedicando 100% do meu tempo à Larissa”, conta. Desde o nascimento dos irmãos, a menina passou a acordar todas as madrugadas em busca da mãe e continua fazendo isso até hoje.

O QUE PIORA..

Vida moderna — As crianças acumulam mil atividades além da escola. Não sobra tempo para o ócio, para o livre brincar nem para  a convivência familiar.

Confinamento — Saír pouco para a vida pública, praias e parques. A falta de convívio com a natureza, que funciona como calmante, também altera as emoções e aumenta o estresse.

Conteudismo — A escola que não leva em conta os talentos individuais das crianças, que se sacrificam para alcançar um padrão que nem sempre tem a ver com o seu perfil. Há pouca adaptabilidade e capacidade de acolhimento dos alunos.

O QUE AJUDA..

Fazer exercícios — Eles aumentam os neurotransmissores, principalmente a endorfina, que traz sensação de bem-estar. Jogos com bola e lutas são ótimas opções.

Ter um cachorro — Um estudo da Universidade de Oklahoma (EUA) feito com 643 crianças descobriu que ter um cão de estimação diminui a probabilidade de desenvolver altos níveis de ansiedade. Estudos anteriores já haviam mostrado que, quem tem cachorro, apresenta menos cortisol, o hormônio do estresse.

Meditar — Pesquisas mostram que a ioga é capaz não só de baixar os níveis de ansiedade de adultos e crianças, mas também de melhorar os sintomas do TDAH, como impulsividade, falta de atenção e hiperatividade. Namastê!

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* Os nomes foram trocados a pedido dos entrevistados

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Источник: https://revistacrescer.globo.com/Criancas/Comportamento/noticia/2016/12/ansiedade-1-em-cada-8-criancas-sofre-com-o-problema.html

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