Perigos à volta das crianças

Dilemas e cuidados no retorno às aulas | Com a Palavra

Perigos à volta das crianças

Entramos na fase de avaliação da reabertura das escolas pelo Brasil, e esse tem sido um dos grandes temas de conversas em WhatsApp entre pais e mães de crianças das mais diversas idades. Não é trivial a decisão de manter os filhos em casa nem a de enviá-los de volta ao ambiente escolar. Há riscos em ambas as situações.

Cidades como São Paulo veem como baixa a probabilidade de retorno às aulas no início de setembro dado o cenário de casos e suspeitas de Covid-19. O governo estadual paulista prevê a retomada apenas em outubro. Enfim, há muitas incertezas sobre como será o restante do ano letivo.

Ao reabrir as escolas, os riscos para as crianças são relativamente baixos, visto o padrão de evolução benigno da infecção pelo coronavírus nessa faixa etária. Só que devemos lembrar que existem riscos mais contundentes a serem considerados para a equipe de profissionais, professores, pais e cuidadores.

Também sabemos que manter as escolas fechadas afeta o aprendizado e pode não só prejudicar o desenvolvimento físico e mental dos pequenos como ampliar as desigualdades na educação e nas perspectivas de vida no longo prazo.

O Ministério da Educação, em resposta a deputados federais, informa que não consegue quantificar a adesão dos alunos ao ensino remoto.

Além de buscar equalizar esse desnível entre crianças das mais diferentes origens, a reabertura das escolas também ajudaria a destravar o resto da economia, permitindo que educadores voltem plenamente às suas posições de ensino e que pais e mães consigam estruturar melhor seu trabalho.

As evidências sobre o impacto da Covid-19 com a reabertura desses estabelecimentos ainda são limitadas, mas a experiência em outros países indica que o perigo não é tão alto.

Segundo artigo da revista The Economist, estudos sugerem que pessoas com menos de 18 anos são menos propensas a pegar (e sofrer com) a doença.

Crianças abaixo dos 10 anos têm mil vezes menos chances de falecer se comparadas a adultos com mais de 70, de acordo com dados britânicos.

As informações disponíveis também mostram que as crianças não são mais propensas a infectar os outros.

Na Suécia, por exemplo, profissionais que trabalham em berçários e escolas primárias (que não fecharam na pandemia) não pegaram mais o vírus que outros trabalhadores.

Na Alemanha, um novo estudo com 1 500 alunos e 500 professores que voltaram às aulas em maio constatou que só 0,6% tinha anticorpos contra o vírus, o equivalente a menos da metade da média nacional.

Houve, sim, um surto da doença em uma escola de ensino médio de Israel — 150 estudantes e docentes tiveram Covid-19. Porém, com precauções e medidas de segurança, esse risco pode ser minimizado.

A discussão não pode deixar de contemplar os riscos de perder as aulas presenciais. Eles podem ser enormes. As crianças aprendem menos e perdem o hábito de aprender.

A desigualdade no acesso a internet, por sua vez, aumenta o distanciamento e a discrepância de oportunidades entre crianças de classes sociais diferentes.

A organização Save The Children estima que aproximadamente 10 milhões de crianças podem abandonar os estudos, principalmente meninas, por causa do fechamento das escolas durante a pandemia.

Os efeitos não se restringem aos pequenos e pequenas. Análise feita pela ONG britânica Pregnant Then Screwed, criada para diminuir a discriminação materna, indica que a Covid-19 afetou negativamente a carreira de diversas mães no Reino Unido.

Baseada em dados de 20 mil mulheres, ela demonstra que 81% delas precisaram recorrer a ajuda de terceiros para poder trabalhar, 72% tiveram de reduzir a jornada de trabalho remunerado por causa dos cuidados com as crianças e 15% foram demitidas ou pediram demissão.

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Quando voltar às aulas?

Para estabelecer o cronograma de volta às aulas, líderes governamentais e centros de ensino precisam avaliar o risco para a saúde pública, a capacidade de adotar medidas de segurança e a importância econômica da escola para educadores, pais e crianças. Ainda não está bem claro o papel das crianças na transmissão do coronavírus, ainda mais considerando a flexibilização das quarentenas.

Porém, é fundamental entender a capacidade das escolas de criar e manter medidas para mitigar o risco de infecção, o que inclui infraestrutura, orçamento, políticas e novos processos, entre outros. A decisão sobre o momento da retomada precisa se basear em todos esses fatores.

A reabertura também não deve ser uma decisão binária, em que todos voltam ou ninguém volta. Países como Dinamarca e Noruega priorizaram o retorno da educação infantil para que pais possam voltar ao trabalho — esse também é o grupo com menor risco de transmissão e contágio.

Já a Alemanha privilegiou a volta dos alunos em anos importantes de transição escolar e as crianças mais velhas, mais propensas a cumprir os protocolos de higiene e segurança. Nesse contexto, há que se considerar que alguns pais queiram manter os filhos em casa.

Assim, as escolas necessitam estar preparadas para a educação remota também.

Os cuidados na volta às aulas

Há uma série de medidas a serem adotadas pelas escolas para elevar a segurança de todos — medidas que devem ser pesadas e considerar prós e contras. Um exemplo: alternar dias letivos entre diferentes grupos de alunos pode facilitar o distanciamento social, mas dificultar a organização de pais em relação à rotina e aos cuidados.

Escolas com espaços não utilizados e equipe suficiente podem escalonar horários, separar as mesas com o distanciamento mínimo e organizar alunos em mais grupos. Só que estabelecimentos com orçamento limitado, equipe reduzida e salas cheias possuem menos flexibilidade para tanto.

São quatro dimensões distintas que devem ser consideradas ao desenhar as medidas de saúde e segurança na retomada: a infraestrutura física da escola; horários e equipes disponíveis; transporte e alimentação; políticas de saúde e comportamento (o que envolve medição da temperatura na entrada, uso de máscaras e identificação de casos suspeitos, por exemplo). Em comum, todas visam minimizar a proximidade física, acatar protocolos de higiene e reduzir o risco de contágio.

Mas não é só a escola que tem um papel aqui. Os pais também devem incorporar as regras e educar e conscientizar seus filhos. Isso passa por seis atitudes:

  1. Ensinar e dar o exemplo das práticas de higiene, o que inclui lavar as mãos com sabonete por pelo menos 20 segundos e contemplando dedos, unhas e punhos.
  2. Monitorar o estado de saúde dos filhos. Caso haja febre ou mal-estar, procurar orientação médica e não levar à escola.
  3. Encorajar a criança a fazer perguntas e falar sobre seus sentimentos, além de ser paciente e lúdico na comunicação com ela.
  4. Manter-se atualizado sobre a pandemia e as regras a aderir.
  5. Estar próximo da escola e ajudar a zelar pelo cumprimento das medidas de segurança propostas.
  6. Ajudar a criança a manter um estilo de vida saudável, com rotina, alimentação balanceada e exercícios físicos.

Retomar o ensino presencial não será tarefa fácil, mas os benefícios podem ser enormes se respeitarmos esses cuidados. Alunos aprenderão, pais e mães conseguirão trabalhar e o vírus será controlado.

* Dr. Julio Corte Leal é pediatra, especialista em alergia e imunologia pelo Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e diretor médico da Theia, plataforma que dá suporte de saúde física e emocional a pais, mães e seus filhos 

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Источник: https://saude.abril.com.br/blog/com-a-palavra/dilemas-e-cuidados-no-retorno-as-aulas/

Filhos na pré-escola: veja dúvidas sobre máscara e idade, distanciamento nas aulas e uso de brinquedos do parquinho

Perigos à volta das crianças

Neste tira-dúvidas, especialistas respondem questões como:

  • Máscara: crianças pequenas devem usar a partir de que idade? Qual máscara protege mais? Meu filho não gosta de usar, o que faço? É necessária uma proteção extra como escudo facial (face shield)?
  • Dentro da escola: é possível manter distanciamento entre crianças pequenas? Brinquedos dos parquinhos podem ser compartilhados? Há risco no contato dos professores ao ajudar os alunos? E na hora do lanche? Como analisar se uma sala tem ventilação adequada?
  • Fora da escola: precisa tomar banho ao chegar em casa? Quais são os riscos no transporte e no deslocamento? Acho arriscado para pessoas da casa o meu filho ir à escola. O que fazer?
  • Beatriz Abuchaim, gerente de conhecimento aplicado na Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, especializada em primeira infância
  • Daniel Lahr, professor do Instituto de Biociências da USP
  • Ethel Maciel, epidemiologista e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)
  • Isaac Schraastzhaupt, coordenador na Rede Análise Covid-19
  • Jamal Suleiman, infectologista do Instituto Emílio Ribas
  • Luciano Pamplona, epidemiologista e pesquisador da Universidade Federal do Ceará (UFC) com experiência na área de Saúde Coletiva e epidemiologia das doenças transmissíveis
  • Luiz Miguel Garcia, presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime)
  • Raquel Stucchi, médica infectologista da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp
  • Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunização e presidente do departamento de imunização da Sociedade Brasileira de Pediatria
  • Vitor Mori, doutor em engenharia biomédica pela USP e pesquisador da Universidade de Vermont

Na próxima terça (2), o G1 faz um programa ao vivo às 19h sobre essas e mais dúvidas. Você pode deixar a sua nos comentários.

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— Foto: Ilustração: Wagner Magalhães

A partir de que idade a criança deve usar máscara?

A recomendação é que a máscara seja usada só a partir dos 2 anos, por causa do risco de sufocamento. De 2 anos a 6 anos, deve haver supervisão constante.

Qual o modelo de máscara recomendado para crianças pequenas?

Pode ser de tecido tricoline ou com dupla camada de algodão, mas não de tricô. Modelos como N95 são restritos para situações muito especiais no contexto de Covid.

O mais importante é que a máscara esteja bem adaptada ao rosto, cobrindo bem o nariz e a boca, sem frestas nas laterais. E é fundamental que seja confortável e que não dê coceira.

Não se esqueça de mandar máscaras extras para troca durante a aula: a de tecido, após 3 horas e muito úmida, perderá sua função. E crianças tendem a se sujar mais.

É necessário usar um face shield?

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Confecção de face shields no Distrito federal — Foto: BMC/ Divulgação

Confecção de face shields no Distrito federal — Foto: BMC/ Divulgação

Na prática, qualquer proteção a mais é bem-vinda. Mas, se a criança se incomodar, ela poderá passar a encostar com frequência no face shield e levar as mãos à boca ou aos olhos depois. O que era para ser um cuidado extra acabaria se tornando um risco maior. Distanciamento social, uso de máscaras e presença de poucas pessoas na sala de aula garantem defesas mais efetivas.

Meu filho não gosta de usar máscara, o que faço?

A recomendação é investir na «alfabetização sanitária». A família precisa explicar que é importante usar a máscara em qualquer lugar como proteção contra o coronavírus.

O ideal é associar tudo isso a momentos lúdicos. Cores e estampas podem ser uma estratégia.

De qualquer forma, haverá necessidade de supervisão maior, porque as crianças têm menos autonomia, e é natural que se esqueçam do protocolo.

Se a máscara cai no chão e o professor pega para recolocar no rosto do aluno, há algum risco de transmissão?

Desde que o adulto higienize as mãos, antes e depois, não há problema. Não é indicado encostar diretamente na boca e no nariz da criança. Se a máscara cair no chão, o ideal é ter uma nova para substituir. Para os professores, o indicado é usar máscaras mais robustas, principalmente aqueles que terão contato com bebês e crianças menores.

É possível garantir distanciamento entre crianças pequenas nas escolas?

A educação infantil é conhecida pelo seu espaço de brincadeira e interação. Na prática, é difícil evitar 100% do tempo o contato entre os colegas. Recomenda-se focar em lavar as mãos com frequência, controlar o número de crianças na sala e manter os ambientes higienizados. Atividades ao ar livre são sempre mais indicadas, quando forem possíveis.

4 de 6 — Foto: Ilustração: Wagner Magalhães

— Foto: Ilustração: Wagner Magalhães

Brinquedos dos parquinhos podem ser usados?

Idealmente, não. Tocar nos brinquedos aumenta, sim, o risco de contato com superfícies contaminadas. Dessa forma, o melhor seria limpar toda hora tanto o parquinho quanto as mãos dos alunos.

Soluções intermediárias também citadas são optar por brinquedos individuais, não misturar grupos diferentes de alunos (para evitar a propagação em caso de registro de Covid em uma turma) e limitar o número de crianças em um espaço.

É, de fato, um momento de risco para a transmissão do vírus, já que as crianças estarão sem máscara. Os especialistas sugerem:

  • lanche em espaços abertos;
  • divisões de acrílico nas mesas;
  • recreio em turnos;
  • ambientes bem ventilados;
  • distanciamento mínimo de 1,5 m;
  • uma pessoa só servindo os pratos, sem compartilhar talheres.

Mas há o reconhecimento de que muitas escolas brasileiras não dispõem dessa infraestrutura.

Meu filho ainda toma mamadeira. Como proceder?

O risco da hora da mamadeira não é considerado muito maior do que os demais. O adulto que supervisiona a criança deve fazer a higiene constante das mãos.

E o deslocamento até a escola? Quais são os riscos no transporte público ou numa perua escolar?

É importante manter as janelas abertas o tempo todo. O ideal é ter a menor ocupação possível, o máximo de distanciamento e o uso de máscara por todos.

Para o deslocamento em transporte público, a dica é ter máscara de boa qualidade, bem ajustada, e, se possível, sentar perto da janela, além de higienizar as mãos.

Em carros de aplicativo ou táxi, o ar-condicionado pode ser ligado, mas as janelas precisam seguir abertas.

É recomendável trocar de roupa ou de sapatos ao entrar na escola ou chegar em casa?

O risco de transmissão por contato de superfícies e objetos, como sapatos, é considerado baixo. Banhos e trocas de roupa são bem-vindos, de modo geral, mas não por causa especificamente da Covid — crianças se sujam, e a higienização é importante até para evitar trazer bactérias para casa. No contexto de pandemia, o essencial mesmo é lavar as mãos sempre que possível.

Como saber se a ventilação da sala da criança está adequada?

Janelas devem ficar abertas, com fluxo cruzado — o ar entra por um lugar e sai por outro. O ar-condicionado só deve ser ligado com a janela aberta.

Um ventilador na janela, apontando para fora, ajuda a jogar o ar de dentro da sala para o ambiente externo. Algumas escolas particulares estão usando um equipamento que mede CO2.

Se a sala não estiver bem ventilada, o gás carbônico se acumula, sinal de que há pessoas respirando o mesmo ar expelido.

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— Foto: Ilustração: Wagner Magalhães

Qual é o índice de infecção e de mortes por Covid entre crianças?

As crianças transmitem menos, têm menos sintomas e adoecem com menor gravidade.

Segundo a Vital Strategies, organização internacional voltada a estratégias de políticas de saúde pública, os brasileiros de até 10 anos representam menos de 1,5% das hospitalizações e de 0,3% das mortes pela doença no país. É importante lembrar que também existem fatores de risco na infância, como diabetes, transplantes e cardiopatias.

Qual problema associado à Covid alunos menores podem desenvolver?

Eles podem ter a Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P), uma grande resposta inflamatória que, em casos graves, acomete diversos órgãos e sistemas do corpo. Os principais atingidos são o sistema cardiovascular e o trato digestivo, e também há alterações na pele e nas mucosas.

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Qual o risco das novas variantes para as crianças?

Não há indicações, neste momento, de que as variantes britânica, brasileira ou africana sejam mais perigosas para crianças. Elas parecem ser mais transmissíveis – em todas as idades.

Já há previsão para vacinação das crianças?

Não. A tendência é que fiquem por último, por serem de um grupo com menos riscos em relação a outros.

Não sinto segurança de mandar meu filho para escola. Posso fazer isso?

A partir dos 4 anos, a presença na escola é obrigatória pela lei, mas está sendo observada, em geral, uma flexibilização por conta do alcance da pandemia. Autoridades municipais têm autonomia para decidir sobre o funcionamento de atividades ao avaliar as condições sanitárias locais.

Especialistas afirmam que cabe à família decidir sobre isso com base nos fatores de risco envolvidos. Questionado sobre um entendimento amplo a respeito da questão, o Ministério da Educação não respondeu.

Como procedo caso alguém de casa ou que teve contato com o meu filho for infectado? Devo avisar imediatamente a escola?

As crianças que tiveram contato com alguém contaminado não devem ir para a escola e precisam ficar isoladas por ao menos 10 dias. A escola precisa ser avisada imediatamente.

Источник: https://g1.globo.com/educacao/volta-as-aulas/noticia/2021/02/28/filhos-na-pre-escola-veja-duvidas-sobre-mascara-e-idade-distanciamento-nas-aulas-e-uso-de-brinquedos-do-parquinho.ghtml

Embarazo y niños
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