Uma criança pode esquecer um abuso?

Foi ao começar a atender vítimas de violência sexual em um ambulatório de pacientes com HIV positivo, em 2015, que a enfermeira Daniela*, hoje com 35 anos, passou a desconfiar que poderia ter sofrido algum tipo de abuso sexual.

«Algumas pacientes que chegavam tinham sido violentadas sexualmente. Aquilo mexia comigo, me incomodava exageradamente, mas eu não sabia a razão. Cheguei a sair do emprego e procurei terapia», conta. «Até então, nem pensava que tinha sido vítima de nada. Era como se nada tivesse acontecido.»

Flashes do ex-noivo passaram a surgir em sua mente quando cogitava ter sofrido uma violência, como em uma lembrança nebulosa de um sonho. «Antes disso, não sabia muito bem o que tinha acontecido para acabar o relacionamento com ele e sempre houve um pesar pelo fim, mas era só isso. Demorou um pouco para entender que eu tinha sido abusada», diz.

Justamente pelo fato de a imagem do ex aparecer constantemente em suas lembranças, Daniela passou a trabalhar com a hipótese de ter sido estuprada por ele.

A confirmação veio em 2017, quando o ex-noivo enviou uma carta para ela em que mencionava o que tinha feito à enfermeira e quando — 2008, época em que ela tinha 23 anos.

Foi então que Daniela conseguiu localizar temporalmente a agressão que já vinha aparecendo, ainda que picotada, nas sessões de terapia. Logo depois de receber a carta, soube que ele se suicidou.

Daniela conta que há cerca de um mês as lembranças começaram a despertar com mais intensidade. «Quando falo sobre isso, chego a sentir um cheiro específico, de sangue com fezes. Agora, contando a história para você, eu sinto esse cheiro», diz à reportagem, durante a conversa por telefone.

«O que eu lembro do dia até agora: não era só ele, tinha mais uma pessoa junto. Não me lembro perfeitamente do momento, mas me recordo do meu ex-noivo me abusando, na vagina, no ânus, na boca. Eu tentava gritar, mas me amordaçavam para que eu não pudesse fazer isso. Esses detalhes estão surgindo.»

Daniela diz não se lembrar do que aconteceu depois, mas recorda uma cena, ainda muito vaga, em que estava em um hospital. «Não sei nem dizer se eu era a paciente.»

Por que vítimas esquecem do abuso?

A perda total da memória de um abuso sexual acontece em cerca de 5% dos casos, segundo o psicólogo americano Jon Hopper, um dos maiores especialistas em trauma e memória dos Estados Unidos e professor associado da faculdade de medicina da Universidade de Harvard.

Mas, ele afirma, é bastante comum que vítimas esqueçam de «detalhes periféricos» — informações que não são centrais e não estão ligadas às fortes emoções do ataque —, como horário ou cor da roupa do agressor, ou que elas não consigam relatar com precisão a ordem dos acontecimentos.

Em entrevista a Universa, Hopper diz que há uma série de fatores que podem levar ao «apagão». «Às vezes, a pessoa não apenas tira essas memórias de sua consciência logo após o ataque acontecer, mas também desenvolve um hábito automático de impedir que as memórias sejam recuperadas para a consciência — mesmo em situações que parecem as certas para lembrá-la», diz.

Psiquiatra do Ambulatório de Sexualidade Humana do Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São Paulo) de Ribeirão Preto, Thiago Dornela Apolinário, que atende Daniela, compara a situação a um chuveiro quente: em alguns casos, quando se aumenta muito a temperatura, faz cair a resistência. «São mecanismos de proteção que impedem que todo o sistema caia. Quando a tensão aumenta é como se houvesse esse apagão temporário para a pessoa não ter que lidar com toda a carga emocional, pois pode não dar conta.»

Ele, no entanto, salienta: mesmo sendo um mecanismo de proteção, o «apagão» coloca a pessoa em sofrimento.

«O prejuízo vai aparecer na dificuldade da vítima em confiar nas pessoas, de criar vínculos, de se engajar numa relação sexual. E, pior, sem nem saber o motivo.

Tive uma paciente que, quando iniciava uma relação, a situação despertava nela um mal-estar tão grande que ela não conseguia continuar. Hoje ela descobriu o motivo: havia sido estuprada.»

O que desperta a lembrança na vítima?

Segundo Hopper, quando flashes começam a aparecer na mente, é provável que sejam desencadeados por situações que tenham alguma ligação com o episódio da violência.

«Por exemplo, ser tocado por seu namorado ou marido de uma maneira que a pessoa que abusou ou agrediu você tocou em você.

Ser abusado fisicamente por um parceiro e os sentimentos de impotência que isso traz podem ser um contexto poderoso que desencadeia lembranças de ser abusado sexualmente ou agredido no passado, quando se sentiu, também, traído e impotente.»

Hopper compara o esquecimento de uma vítima de estupro ao que acontece com soldados que estiveram em combate e policias que foram violentamente atacados.

«Não ficamos surpresos quando um soldado ou policial não consegue se lembrar da sequência exata em que eles ou seus companheiros foram feridos em uma batalha, e não devemos duvidar das memórias das vítimas de agressão sexual quando estão confusas sobre a ordem dos acontecimentos», diz.

«Todos os dias, em todo o mundo, as vítimas de agressão sexual são atacadas por isso. Mas esquecer detalhes do que aconteceu é normal. As autoridades precisam entender isso. Caso contrário, continuará se alegando que a vítima não é confiável ou está mentindo porque não lembra de tudo, o que é totalmente contrário ao que a ciência mostra.»

O psiquiatra brasileiro endossa o que seu colega americano diz. «Já tive paciente que, mesmo colocada em frente ao agressor na delegacia ou a um retrato falado, não consegue se lembrar das feições da pessoa e confirmar quem foi o autor do crime», afirma Apolinário. «As pessoas duvidam: 'Como assim você não lembra?'. Mas é tão comum esquecer quanto se lembrar.»

*O nome foi trocado a pedido da entrevistada.

Источник: https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2020/02/18/esqueci-que-fui-estuprada-por-que-vitimas-perdem-a-memoria-de-um-abuso.htm

Tipos de abuso sexual de crianças e adolescentes

Uma criança pode esquecer um abuso?

Abuso sexual é toda forma de relação ou jogo sexualentre um adulto e uma criança ou adolescente, com o objetivo desatisfação desse adulto e/ou de outros adultos. Pode acontecer pormeio de ameaça física ou verbal, ou por manipulação/sedução. Namaioria dos casos, o abusador é uma pessoa conhecida da criança ouadolescente – geralmente familiares, vizinhos ou amigos dafamília.

Ao contrário do que muitas pessoas pensam, o abuso sexual nãoacontece, necessariamente, com contato físico. Existemdiferentes tipos de abuso sexual que acontecem sem contatofísico e é importante que todas as pessoas no entorno dacriança estejam atentas para os sinais apresentados por quem sofre uma ou maisviolações.

Abuso sexual de crianças eadolescentes com contato físico

São os atos físicos que incluem toques nos órgãos genitais,tentativas de relações sexuais, masturbação, sexo oral e/oupenetração. Eles podem ser legalmente tipificados em: atentadoviolento ao pudor, corrupção de menores, sedução e estupro. Tambémé importante destacar que, contato físicos “forçados”, como beijose toques em outras partes do corpo, podem ser considerados abusosexual.

Tipos de abuso sexual decrianças e adolescentes sem contato físico

Ainda quenão envolva qualquer contato físico, o abuso sexual de crianças eadolescentes ainda é uma grave violação de direitos humanos, quedeve ser denunciada às autoridades e pode trazer grandes traumasemocionais e psicológicos para as vítimas; Entenda cada um dostipos de abuso sexual de crianças e adolescentes que não envolvem‘toques’:

Assédio sexual

O assédio sexual, que pode serexpresso em forma verbal, não verbal ou física, é todo ocomportamento indesejado de caráter sexual. Baseia-se, na maioria das vezes, na posição depoder do agente sobre a vítima, que é chantageada e ameaçada peloagressor.

Abuso sexualverbal

O abusosexual verbal pode ser definido por conversas abertas sobreatividades sexuais – falas erotizadas– destinadas a despertar o interesse dacriança ou do adolescente ou a chocá-los. Um exemplodo abuso sexual verbal são os telefonemasobscenos..

Exibicionismo eVoyeurismo

O exibicionismo é o ato demostrar os órgãos genitais ou se masturbar em frente a crianças ouadolescentes ou dentro docampo de visão deles.

Já o voyeurismo pode serexplicado como o ato de observar fixamente atos sexuais ou órgãosgenitais de outras pessoas quando elas não desejam servistas, obtendo satisfaçãosexual com essa prática.

Nas relações sexuais entre adultos, tantoo exibicionismo quanto o voyeurismo podem ser práticas sexuaisconsentidas.

Exibição de materialpornográfico

Geralmente,a pornografia é classificada como uma forma de exploração sexual decrianças e adolescentes, já que o objetivo dessa violência é aobtenção de lucro financeiro para o agressor ou de abuso sexual comcontato físico. No entanto, quando o agressor exibemateriais pornográficos a meninas e meninos e os obriga a assistir, é uma forma deabuso sexual sem contato físico.

Consequências do abuso sexualpara crianças e adolescentes

Antes de tudo, é importante ressaltar que a violência sexual nãoproduz o mesmo resultado sobre todas as crianças e adolescentessubmetidos a ela.

Além de cada criança ou adolescente reagirem deforma diferente a situações de abuso sexual, há tambémmuitos fatores externos que moldarão o impacto queessa violência terá na vida da vítima no futuro.

Alguns deles são:a duração do abuso; o grau deviolência; o grau de proximidade entre o agressore a criança, o grau de sigilo sobre o fatoocorrido e a existência e eficiência doatendimento da rede de proteção à criança e doadolescente.

Sinais de abuso sexual a curtoprazo

Além de marcas físicas como lesões, hematomas e doençassexualmente transmissíveis, é importante notar alguns sinais de que uma criança ou adolescentepode estar sendo vítima de abuso sexual: mudançasbruscas de comportamentosem explicação aparente;mudanças súbitas de humor; sonolência excessiva; perda ou excessode apetite; baixa autoestima e isolamento social; evasão escolar;medo de escuro ou de ficar sozinho, entre muitos outrossinais de alerta.

Também é essencial destacar que a existência de um ou maissinais nem sempre indica que uma criança ou adolescente sofreuabuso sexual.

Consequências a longo prazo doabuso sexual na infância e adolescência

• Sequelas dos problemas físicos gerados pela violênciasexual. Lesões, hematomas e doenças sexualmentetransmissíveis (DSTs) podem interferir na capacidade reprodutiva,podendo levar, em casos mais graves a uma maior morbidade materna efetal.

• Dificuldade de ligação afetiva e amorosa,devido a um profundo sentimento de desconfiança pelo ser humano emgeral, por temor de reviver a experiência traumática ou pordissociação entre sexo e afeto, gerando sentimentos de baixaautoestima, culpa e depressão prolongada por medo daintimidade.

• Dificuldades em manter uma vida sexual saudável.

Aqui,as vítimas podem ter reações divergentes: podem evitarqualquer tipo de relacionamento sexual por traumas que bloqueiam odesejo; vivenciar baixa qualidade nas relações sexuais; desenvolverincapacidade de distinguir sexo do afeto; ter compulsivo interessesexual para provar que são amadas e para se sentirem adequadas,entre outros comportamentos disfuncionais.

Dependência em substâncias lícitas eilícitas. Importante ressaltar que não se deve fazerqualquer associação mecânica entre abuso sexual e uso dedrogas. No entanto, há relatos de pessoas que confessaram terusado drogas inicialmente para cuidar de sentimentos, esquecer ador, a baixa autoestima e, mais tarde, o uso se tornou umvício.

É extremamente importantesaber ouvire acolhera criança ou adolescente que passou por alguma situação do abusosexual.

 Evitar reações extremas e perguntasinquisitórias; denunciar a suspeita às autoridades e buscar umatendimento médico e psicossocial humanizado para as vítimas.

Em caso de qualquer suspeita de abuso sexual decrianças e adolescentes,denuncie!

Источник: https://www.childhood.org.br/tipos-de-abuso-sexual-de-criancas-e-adolescentes

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